sexta-feira, 20 de novembro de 2009

...quatro estações...

Segurava entre os dedos frios a flor vermelha já morta, que acabara de apanhar na moita do quintal. Quatro estações desde que plantara as sementes, presente do vizinho, amigo de infância. Trezentos e sessenta e cinco dias de espera e zelo, de cuidado, de regar, de cantar antes de dormir, de conversar sobre tudo o que deveria ser e nunca é...

Agora, ali parada, flor entre os dedos frios, observava, estagnada, o movimento das petalazinhas mortas com o soprar dos ventos que precediam a tempestade. Aninha percebia, entre as primeiras gotas, frias, da chuva, a fragilidade daquelas pétalas, que pareciam de camurça. Entendia a brevidade dos atos-sem-volta, a vulgaridade com que, às vezes, faz-se movimentos bruscos demais, antecipa-se aos pensamentos sãos, trai-se amargamente.

Sua angústia foi interrompida pelo badalar do relógio cuco da sala de estar. Meia noite. Já era tarde, muito tarde, tarde demais. Contornou a moita e voltou para o quarto, com sua mais querida flor entre os dedos molhados.

Um comentário:

Agnes Helena disse...

Eu tb faço movimentos bruscos demais....
talvez numa última tentativa desesperada de salvar oq já não tem mais salvação pq chegou-se tarde demais.
O tempo é amargo.